O retorno do alfaiate: por que a moda brasileira está voltando ao feito à mão
Ilustração: Estilo Próprio
Tem algo acontecendo nas ruas de São Paulo, Rio e Recife que os números do varejo ainda não conseguem capturar completamente: as pessoas estão voltando ao alfaiate. Não o alfaiate de avô, aquele de loja empoeirada no centro da cidade, mas uma nova geração de profissionais que mistura técnica tradicional com estética contemporânea.
A tendência não surgiu do nada. Ela é, em parte, uma reação ao ciclo exaustivo do fast fashion — roupas que duram uma estação, que chegam em volumes absurdos, que geram montanhas de descarte. A pandemia acelerou uma reflexão que já estava em curso: o que realmente vale a pena comprar?
O novo alfaiate
Mariana Luz tem 34 anos e um ateliê de 40 metros quadrados no Bom Retiro, em São Paulo. Formada em design de moda, ela trabalhou por seis anos em uma grande marca antes de abrir o próprio negócio em 2021. "Eu queria fazer roupas que as pessoas usassem por dez anos, não por dez semanas", ela conta.
O ateliê dela tem lista de espera de três meses. Os preços não são baratos — uma calça sob medida começa em R$ 480 —, mas a demanda é constante. "Meu cliente não está comprando uma roupa. Está comprando tempo, cuidado, algo que foi feito pensando nele especificamente."
"Quando você veste algo que foi feito para o seu corpo, você anda diferente. Isso não tem preço." — Mariana Luz, alfaiata
O mercado que cresceu quieto
Dados do Sebrae mostram que o número de microempreendedores individuais no setor de confecção e costura cresceu 28% entre 2020 e 2025. Parte desse crescimento é de costureiras que trabalham em casa; outra parte são ateliês como o de Mariana, que atendem um público disposto a pagar mais por qualidade e personalização.
O fenômeno não é exclusivo das grandes cidades. Em Fortaleza, um coletivo de alfaiates chamado "Fio a Fio" reúne doze profissionais que dividem espaço, equipamentos e clientes. Em Porto Alegre, uma plataforma online conecta consumidores a costureiros locais, funcionando como um marketplace do feito à mão.
Sustentabilidade ou tendência?
A questão que divide os especialistas é: isso é uma mudança estrutural no consumo de moda ou mais uma tendência passageira? A resposta honesta é que provavelmente é os dois ao mesmo tempo. Há um núcleo de consumidores genuinamente comprometidos com um consumo mais consciente. E há um grupo maior que está seguindo uma estética — o "slow fashion" como identidade visual — sem necessariamente mudar seus hábitos de compra de forma profunda.
Mas mesmo que seja parcialmente tendência, o efeito prático é real: mais alfaiates trabalhando, mais ateliês abrindo, mais roupas sendo feitas com cuidado. Para quem está nesse mercado, isso é suficiente.